quinta-feira, 3 de maio de 2012

Meu Avô


Meu avô era um homem íntegro. Não existe outra definição;

Gostava de sentar ao seu lado no banco de madeira na grande mesa da cozinha com a toalha de plástico cheia de flores. Os seus gatos passavam por entre nossas pernas na hora do café; Eu ficava nervosa por isso, mas meu avô estava ali; Era uma grande honra.
Na hora do banho quase sempre:
- Vô.... Tem uma aranha enoooorme no Box (sempre exagerada);
_ Ela frequenta esta a casa há mais tempo e frequência do que você. Respondia-me calmamente.
Eu continuava meu banho sem tirar os olhos dela. Intrusa.

Desligava a televisão quando queria e ia dormir, não havia alguém (entre crianças e adultos) que tivesse a ousadia em argumentar ou pior, religar.
  Nossa diversão então era balançar o grande e assustador lustre da sala que desenhava nas paredes as histórias contadas pelos mais velhos.  
Meu medo maior era dos morcegos que invadiam o forro e faziam da minha noite uma grande aventura, sempre tive uma imaginação fértil.
  Na última vez em que dormi na sua casa meu medo não era mais dos morcegos, mas de que ele nos visse (eu e minha irmã) comendo hambúrguer escondidas; Comer hambúrguer era um pecado quando se tinha angu na panela.
  Os quadros eram um espetáculo à parte. Os pequenos  da cozinha que retratavam uma vida simples na roça  aos grandes e religiosos como o do Mar vermelho na sala. Mas daqueles de fotos desenhadas, eu simplesmente odiava.
  Eu renomeava as frutas que encontrava pelo sítio, e ele achava isso totalmente cabível.
  Deitado em sua rede me contava histórias absurdas e eu acreditava em todas elas. Como da vez em que contou em detalhes a história de um homem que foi descansar em uma árvore e foi engolido por ela durante o sono.  Claro que era verdade; Era meu avô!
  Ele nunca confundia meu nome. Eu era a Carolina ou os milhões de variantes.
Tinha a postura de um grande sábio, e era.
  Eu me instruí a fazer a ele somente perguntas inteligentes e relevantes. No resto, só ouvia o que ele estava disposto a falar.

Ouvi dele apenas uma gargalhada e disse q o amava uma vez, foi à última que o vi.
Numa cama de hospital ele me olhou como se não me conhecesse e me perguntou: - Quem é você?
Segurei em sua mão fria, olhei para seus olhos e disse: - sou eu vô, a Carol, filha do Gerson.
Ele me corrigiu: - Canurina. 

Chorei, sabia que não o veria mais.

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